quarta-feira, 20 de julho de 2011

Vida e morte de Adão Latorre



por: Luis Godinho

[13H:25MIN] 30/12/2005 - PARAPEITO

No ano de 1983 ao ler o livro A história de Bagé de Eurico Jacinto Sales, edição 1955, dei início a uma pesquisa sobre a vida de Adão Latorre, o que acabou em letra e música. Naquela época ainda não se dava muita importância à degola (combate do Rio Negro). Entendiam que o “Negro Adão” não passava de um covarde a mando do general Joca Tavares. Os anos se passaram e a música com letra de minha autoria e melodia de Luiz Carlos Camejo Cardoso (o Cardosinho de Bagé), interpretação de Wilson Paim, tornou mais popular e entendida a figura de Adão Latorre. Já no ano de 1993, Centenário da Revolução Federalista, a Urcamp Bagé, através do ilustre mestre, professor, pesquisador e historiador dr. Tarcísio Antônio da Costa Taborda, realiza um belo conclave em comemoração ao centenário da revolução, quando então anuncia que Adão Latorre era um tenente-coronel do Exército Uruguaio e que atuava como mercenário na dita revolução. Já no ano 2004, juntamente com o Núcleo de Pesquisa Históricas de Bagé, que tem o nome em homenagem ao dr. Tarcísio, visitamos o túmulo de Chico Diabo (na Guardinha) e logo a seguir o de Adão Latorre (cemitério de Santa Tecla) aproximadamente a oito quilômetros de Bagé. Mais adiante fomos informados por Eron Vaz Mattos do local onde moravam os pais de Adão Latorre (Rodeio Colorado) a partir da aí, então, é que entendemos o motivo da degola do Rio Negro, ou seja:
O coronel Pedroso depois de atear fogo na Estância do Limoeiro, cruza pelos “Olhos D’Água” e a poucos quilômetros, próximo a Encruzilhada, degola os pais de Adão Latorre e ateia fogo no seu rancho. Por esse motivo é que Adão Latorre se apresenta como voluntário aos revolucionários com o intuito de vingar o assassinato de seus pais por Manoel Pedroso, o que aconteceu com a sua degola e a seguinte narrativa, segundo o dr. João Maria Colares, em História de Bagé por Eurico Jacinto Sales, página 278:
MP - Adão, quanto vale a vida de um homem valente e de bem?
AL - De bem... não sei!!! A vida de um homem vale muito, a tua não vale nada porque está no fio de minha faca e não há dinheiro que pague.
MP - Pois então degola “negro filho da puta”. Dito isso segurou-se a um arbusto, levantando a cabeça para facilitar a tarefa ao inimigo.
Assistiu essa cena Pedro Luis Lacerda que dizia ainda haver ouvido o pedido de Pedroso a Adão para que entregasse um anel de seu uso a uma filha residente em Pelotas, segundo informações foi cumprido o feito por Adão Latorre. Passou anos e segundo as pessoas que conviveram com Adão diziam que era um cidadão de paz, amigo e servidor.
Na minha passagem pelo Exército Brasileiro por quase 30 anos, conheci o Pedro Antônio de Souza Neto (tio Pedro), ferreiro do antigo 12º RC, hoje 3º Batalhão Logístico (Batalhão Presidente Médici), o qual, ao conhecer a música Adão Latorre e seu autor, confessou, que no ano de 1923, com a patente de 3º sargento do Exército, foi designado a integrar um pelotão para fazerem o translado do corpo de Adão Latorre do Passo da Maria Chica (Ferraria, Dom Pedrito) para Bagé, onde foi sepultado no cemitério de Santa Tecla onde se encontra até hoje, conforme registro fotográfico, juntamente com seu irmão, o major João Latorre. Segundo informações, Adão Latorre foi fuzilado pelos capangas do major Antero Pedroso irmão de Manoel Pedroso em uma emboscada. Pedro Antonio de Souza Neto, desempenhou suas funções no 3º Batalhão Logístico, até os 90 anos de idade, vindo a falecer com toda a sua lucidez, aos 93 anos.

Letra música
Adão Latorre
Bombacha de pano bom
Cinto com as iniciais
Cabo de relho prateado
Com traços de ouro puro
Faca de prata e espada
Num pulso muito seguro.

“93” foi tua época
e nela foste um taura
temido em toda a pampa
por causa da degolada
da faca fio de navalha
E a gravata colorada.

Mais de trezentos foi teu número
Mais ou menos diz a história
Entre ganhas e perdidas
Tiveste mais foi vitória
Para uns tristeza e dor
Para outros, fortuna e glória.

Bom cavalo o teu tordilho
Os capangas eram dos bons
Com fletes do mesmo pêlo
Boas pilchas, bons aperos
Para uns era valente
Para outros covardão
Degolador de “93”
Coronel, negro Adão.

Corre a faca, corre o sangue
Tomba o homem na ladeira
Pois a morte é derradeira
Não dá mais pra atacar
Depois do pescoço solto
Não dá mais pra costurar.

Jota, jota, jota paisano
Cambalhota soldado clarim
Lagoa da música a bolapé
Negro Adão guarda a faca
“93” foi assim.

Arquivo/Luis Godinho

8 comentários:

  1. Mas bah Viviane, um dos mais esclarecedores relatos sobre Adão Latorre que li até agora.
    E não foram poucos, homem que considero ijustiçado pela historia os motivos são varios que hora faltam espaços para relatar.

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    1. simples como era negro , foi assassinado , por capangas da familia pedroso , aqui no brasil é assim é pobre , é negro deu passam na bala , e ainda tentão apagar a história

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  2. Obrigada querido !!!
    Fico muito feliz cada vez que alguém gosta e deixa um comentário, isso só me ajuda e estimula pra fazer cada vez melhor !!!
    Volte sempre !!

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. me encantei com o que li, Parabéns. sou filho dessa terra e procuro literaturas que me falem mais sobre os antepassados, ilustres ou não que passaram ou viveram nesta região.
    onde posso encontrar esse livro? "A história de Bagé de Eurico Jacinto Sales",
    Obrigado Grande Abraço!

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  5. Excelente! Ao ler um texto como esse me encanta essa característica gaúcha de manter viva sua história. Parabéns pela pesquisa! É gratificante, também, ver uma Guia de Turismo que busca conhecimentos da história para melhor desempenhar sua profissão.

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  6. Boa noite. Belíssima letra. Onde consigo a gravação desta música? Abraços

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